Entre os meses de janeiro e fevereiro, a peça {FÉ}STA esteve em cartaz no Sesc Pompeia sob produção de Jéssica Turbiani. A produtora, educomunicadora e também palhaça se apresentou com o coletivo de teatro Prot{agô}nistas.
Jéssica é estudante da Licenciatura em Educomunicação da ECA USP, mas não só. Formada como atriz, nunca parou com seus estudos sobre as artes, partiu para as comicidades e conheceu a palhaçaria. Durante sua formação, encontrou artistas pretas inseridas nas discussões sobre as mesmas artes que estudava e passou a definir esse recorte importante em seu trabalho.
O panorama sobre sua vida profissional é essencial para entender sua relação com o Coletivo Prot{agô}nistas. Criada em 2019, a companhia é composta por artistas negras(os). O foco nas artes como o circo, a dança e a música é utilizado para retomar e celebrar a cultura negra brasileira. Assumindo dupla função no espetáculo, como produtora e palhaça, Jéssica conta como foi esse processo:
“No primeiro espetáculo da companhia, sou produtora e, já cheguei a substituir quando faltava um palhaço, quando ele não tinha agenda. Isso é muito natural, porque no circo, o artista tem várias funções, isso acontece de forma comum, porque também sou palhaça. Então eu já estava ali produzindo e fazendo palhaçaria. Até que, recebo o convite do diretor, Ricardo Rodrigues para ser a palhaça do segundo espetáculo da companhia. Fiquei muito honrada e aceitei, claro, porque é o que me move. Eu amo ser produtora, acho que conseguimos mover muitas coisas por meio da gestão cultural, mas ser palhaça é minha maior paixão. E neste Coletivo trabalhamos com um recorte sociopolítico.”
Ainda cursando a Licenciatura, Jéssica continua explicando a relação que traça entre seu trabalho com a arte e a Educomunicação:
“Ao longo da história, o circo lotou suas lonas, as cidades paravam para assistir. A elite também estava ali, mas a população sempre esteve presente. Então o circo é esse lugar: uma linguagem que comunica com todo mundo. Eu vejo como um campo de comunicação direta, democrática, que tem tudo a ver com o que eu defendo. É sobre luta. É sobre usar a arte para construir uma sociedade mais igualitária, mais justa, trabalhar o antirracismo na prática. Os projetos em que atuo são, na prática, antirracistas e democráticos. Essa relação com a educomunicação, para mim, é muito nítida.”
Por meio de movimentos corporais, como acrobacias, danças e música, {FÉ}STA é permeada por quatro temáticas principais: morte, nascimento, união e fé. É interessante ver como a escolha do local reflete a própria temática da apresentação. O teatro do Sesc Pompeia é bilateral, ou seja, há público dos dois lados com o palco no meio. Você não sabe quem está do outro lado, as luzes apagadas não permitem a identificação. Mas, você sabe que ali do outro lado há emoção e sentimento. Você ouve risadas, conversas, choros, e apenas sinuosidades do que poderia ser. Assim como em uma festa, assim como na vida. Todos unidos assistindo as mesmas cenas, com fé no amanhã.
O cuidado e o profissionalismo são de impressionar. Há um andaime que compõe a maioria dos cenários da peça. E antes que seus olhos possam perceber, a estrutura já foi tomada por outra performance.
{FÉ}STA fala de afeto, religiosidade, comunidade, e acima de tudo, ancestralidade. Eu falei dos olhos, mas a visão não é o único sentido provocado pela peça. A trilha sonora faz o coração bater a todo momento. E ali você escuta de tudo, impossível não se (re)conhecer em pelo menos um ritmo ou uma música. Da guitarra ao tamborim, todos os instrumentos são utilizados com muita consciência para tocar funk, samba, cantigas e outros estilos musicais brasileiros.
Como uma boa peça de circo e palhaçaria, não poderia faltar interação com o público. Jéssica e Robert Gomez interpretaram os palhaços, como aqueles que estão a conhecer o mundo, as pessoas e o espiritual. Mas mais do que isso, como parte da arte da palhaçaria, tiraram muitas risadas de todos os públicos. Jessica traz um relato falando da importância da palhaçaria e da representatividade negra:
“É muito bonito ver como as crianças se identificam com aqueles palhaços, como ficam imitando a gente no final. Quando saímos do espetáculo, elas correm para nos procurar, ficam encantadas e, principalmente, as crianças negras. Isso é muito marcante, porque elas se veem. Isso cria um imaginário possível: ver uma palhaça e um palhaço negros, ver um circo todo negro. Não é só a gente no palco, é uma equipe inteira, todo mundo preto, com todos os tons de pele, todos os formatos de cabelo, de nariz e de boca.”



